Cidade de Cultura

Eduardo Luciano
A cultura, no sentido mais lato do termo, está no centro de qualquer política municipal para um concelho como Évora.
Raros são os debates sobre o concelho que não terminam na questão da cultura como elemento estratégico para o desenvolvimento do território, como factor de atração e fixação de populações, como elemento essencial para o reforço da sua identidade.
Évora tem a sorte de ter instalados no seu território um conjunto de agentes que, de forma diversificada, desenham o panorama da oferta cultural apesar da inexistência de uma estratégia clara de intervenção nesta área.
Durante o ciclo político que agora termina os agentes culturais começaram por ser tratados como meros prestadores de serviços, passaram a ser vistos como os malandros que só querem subsídios e acabaram a ser meros fornecedores de listas de eventos a constar de uma agenda divulgada pelo município.
Estas opções resultaram num completo esvaziamento das funções do poder local que abdicou de ter programação própria, de construir uma estratégia participada plurianual e diversificada, envolvendo os agentes locais. O resultado foi o empobrecimento da oferta, o desânimo entre produtores e a irrelevância de Évora no panorama cultural do país.
Argumentarão alguns com as dificuldades financeiras do município. Não negamos que um município com 80 milhões de euros de dívidas e atolado em decisões que parecem terem sido concebidas para o levar ao descalabro, terá dificuldades acrescidas para cumprir o seu papel na área da cultura como em qualquer outra. Mas nem só de apoios financeiros vivem as relações entre o município e os agentes culturais.
É urgente que no início do próximo mandato se reestabeleçam relações de confiança entre todos que permitam construir de forma participada uma estratégia clara de intervenção, onde o município assuma o seu papel aglutinador e de coordenação, sem pretensões tutelares, que volte a colocar Évora na rota das cidades onde a cultura se constitui o eixo estrutural do desenvolvimento.
É urgente a reconstrução de cumplicidades entre projectos diferentes que não podem ser vistos como concorrentes num quadro de candidaturas a apoios, necessariamente escassos, sujeitos a um rating que não tem em conta as especificidades de cada um antes apostando numa lógica de competição sem sentido.
Num quadro em que as dificuldades financeiras são as conhecidas, a exigência de um outro papel do município assume aspecto decisivo para que esta cidade e este concelho voltem a afirmar-se como território de Cultura e não apenas como palco de enlatados de mero entretenimento impostos pelos circuitos comerciais.
A escolha é  simples. Ou apostamos nesta mudança para a qual todos, município e agentes, terão que se empenhar na sua construção, que será  sempre fruto de um trabalho de grande exigência e complexidade, ou ficaremos como estamos com natural tendência para piorar.
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