Uma descoberta sensacional
Vítor Dias
Ago 31, 2009
Como se calculará, nada me move, em termos gerais, contra a existência de programas eleitorais das diversas forças concorrentes a eleições e obviamente que considero que, em abstracto, se trata de instrumentos de clareza e transparência política que devem ou deviam servir de informação fidedigna para a formação da vontade e opção dos eleitores e representar (como representam comprovadamente no caso do PCP) um enunciado de orientações e compromissos a respeitar nos próximos quatro anos.
Dito isto por causa das confusões, não posso entretanto deixar de considerar como completamente artificiais e parciais quer as espadeiradas que simpatizantes do PS e do PS estão trocando entre si, designadamente na blogosfera, a propósito de pontos programáticos quer a abordagem acrítica e crédula que os media estão fazendo dos programas eleitorais desses dois partidos.
E escrevo isto por causa de duas realidades fundamentais que neste momento estão a ser completamente esquecidas: a primeira é que o que mais influi nos eleitores e dá o tom às campanhas de cada partido não são os programas eleitorais mas sim o que poderíamos chamar de «discurso eleitoral», isto é o que, de forma compreensivelmente seleccionada e por si escolhida, proclamam ou dizem nas entrevistas, nos materiais de comunicação escrita, nas declarações avulsas aos órgãos de comunicação social e nas entrevistas e debates; e a segunda é que o que é absolutamente característico dos programas eleitorais do PS e do PSD é em muitos pontos dizerem precisamente o contrário daquilo que depois fazem no governo ou é certas matérias ser tratadas com uma prosa tão elíptica que dá velada cobertura para o que depois de quiser fazer.
Eu sei que muito poucas pessoas serão hoje capazes de reconstituir com detalhe o que foi o «discurso eleitoral» do PS na campanha para as legislativas. Mas quero ter a esperança de que, apesar disso, muito poucos se atreverão a negar que o tom, o sentido e os enfoques desse discurso pertenceram u a um mundo de palavras encantatórias e completamente diferente e oposto ao mundo de medidas e decisões gravosas depois tomadas pelo governo do PS nestes quatro e meio, designadamente aquelas que mais funda indignação e descontentamento provocaram em vastíssimos e diversificados sectores sociais.
E. mesmo no estrito e limitado terreno do programa eleitoral escrito e publicado, basta apenas dar um exemplo (e poderiam ser muitos mais). É que eu dou um doce a quem for capaz de ir ler o que, no seu Programa de 2002, o PS escrevia sobre legislação laboral (pode ser lido aqui ) e conseguir concluir o que lá escrevia tinha alguma coisa a ver com o agravadíssimo Código de Trabalho que o PS fez aprovar. E para o PSD não se ficar a rir, os leitores também podem ir aqui e ver a quantidade de medidas nefastas que os governos de Durão Barroso e Santana Lopes adoptaram e sobre as quais não havia uma linha no Programa Eleitoral que haviam apresentado para as legislativas de 2002.
Com estes antecedentes, prevenções e enquadramento, é agora altura de contar aos leitores que acabo de fazer uma descoberta sensacional: de facto, os programas eleitorais do PS e do PSD estão disponíveis em PDF online e lembrei-me de neles fazer, várias vezes para ter a certeza, uma pesquisa das palavras «privatização» e «privatizações». Ora acontece esta coisa verdadeiramente espantosa em dois partidos para quem as privatizações sempre têm sido um elemento estruturante das suas políticas: é que a palavra «privatizações» não aparece em nenhum deles e a palavra «privatização» só aparece, no contexto de «acompanhar» a privatização das empresas de transporte aéreo nas regiões autónomas.
Alguns leitores, sem uma informação exacta da situação, talvez digam «pudera, já privatizaram tudo!»; outros, mais generosos talvez digam «mas isso é bom sinal porque significa que acabou o saque dos bens do Estado». Creio que nem uns nem outros acertam porque a verdade é que ainda há empresas importantes por privatizar e importantes partes sociais do Estado em empresas privatizadas de que PS e PSD se pretendem desfazer e, por fim, basta dizer que está claríssimo que, na concepção do PS, o novo aeroporto está associado à privatização da ANA.
As minhas infrutíferas pesquisas o que demonstram pois é que os programas eleitorais do PS e do PSD, em domínios essenciais, são programas de deliberada e cínica ocultação.

