O futuro construímo-lo nós
Gustavo Carneiro
Mai 30, 2009
A Marcha já foi há uns dias e, entretanto, já muita coisa aconteceu e muita alarvidade se disse por aí sobre a CDU, a sua campanha, propostas e candidatos... Mas por mais que tente não consigo escrever sobre qualquer outro tema, mesmo sabendo que corro o risco de repetir o que outros já disseram ou de dizer aquelas verdades tão óbvias que talvez nem valesse a pena dizê-las. Ainda assim, arrisco avançar com algumas ideias.
A primeira, bastante óbvia, é a convicção de que apenas a CDU poderia ter promovido uma Marcha com aquela dimensão, capaz de encher a transbordar o Marquês de Pombal e a Fontes Pereira de Melo. Porque só no PCP e na CDU se encontra tal capacidade mobilizadora. A mesma que muitos tentam apresentar como estando fora de moda, mas que representa o que de mais elevado há na militância partidária, verdadeira escola de valores e de vida – a entrega, o empenho, a partilha de ideais e de sonhos, mas também de tarefas e trabalho concretos...
A segunda é a noção de que também pelos motivos que estiveram na base da sua convocação, só o PCP e a CDU poderiam ter feito esta Marcha. Porque ela foi marcada e realizada para contrariar o conformismo e a resignação, para confirmar o valor ímpar da luta de massas na transformação da vida; ela foi feita não apenas para protestar contra algo que está profundamente errado, mas para colocar na ordem do dia a necessidade da construção de um País e um mundo novos, infinitamente melhores.
A terceira ideia relaciona-se com a absoluta certeza de que a Marcha ficará na memória colectiva daquelas mais de 85 mil pessoas que desceram a Avenida da República e a Fontes Pereira de Melo rumo ao Marquês de Pombal – que são, como afirmou na ocasião Jerónimo de Sousa , «aqueles que não se conformam, não se resignam, não desistem, que sempre que foi preciso lutaram, que sempre que for necessário lutarão». E que, daquele dia em diante, o continuarão a fazer, todos os dias, como até ali, mas ainda com mais determinação e com mais confiança, ainda mais certos de que isto vai*.
Uma outra ideia: a Marcha tocou fundo em muita gente que ali não esteve. Gente a quem o desemprego, a exploração desenfreada, a injustiça e a miséria bateram à porta e que, à força de tanto o ouvir, se habituou a considerar estas realidades, inerentes ao capitalismo, como a ordem natural das coisas (como o foram, nas suas épocas, o esclavagismo e o feudalismo). Gente a quem o regresso da esperança há muito desaparecida pode representar a sua entrada (ou reentrada) na luta quotidiana em defesa dos seus interesses e direitos.
Da Marcha saiu também a afirmação de que o futuro cabe ao povo construí-lo. E nesse processo de construção do futuro, que não começou no dia 23 de Maio nem acabará em qualquer noite eleitoral, as eleições jogam um papel importante e uma grande votação na CDU será, sem dúvida, um poderoso contributo para uma vida melhor.
E uma coisa é certa: no dia seguinte a qualquer eleição, aqueles 85 mil marchantes, e muitos outros, continuarão no seu lugar de sempre – no lado certo da luta de classes.
* Ao contrário do que afirmou uma jornalista da RTP na noite da Marcha, isto vai, meus amigos, isto vai não remete para nenhum lema de campanha de Barack Obama, que estaria, na melhor das hipóteses, nos seus primeiros anos de escola quando o poeta português José Carlos Ary dos Santos escreveu estes versos. Coisa triste, falar do que não se sabe...

