Coligações só quando há ligações

André Levy
 

André Levy

Após insistentes e repetidas perguntas, o PCP não deixou espaço para dúvida que não há condições para uma coligação com o PS para formar de governo, caso este venha a ganhar uma maioria relativa para a Assembleia de República. Mas eis que primeiro Ferro Rodrigues, no Expresso (15/Ag), ex-líder do PS, e depois Pedro Pedroso vêm a publico defender que em tal caso o PS deve procurar coligar-se. Já Sócrates havia tornado claro, na forma como caracteriza os partidos à esquerda do PS, que tal não seria realizável. Para para Ferro Rodrigues e Pedroso defendem que só com uma coligação podemos ter um governo forte (em torno de quê, podemos perguntar). Pedroso vai mais longe e concluiu mesmo que em matérias de “política interna não há nada de incompatível entre o PCP e o BE e o que o PS defende, tirando a retórica e as prioridades de agenda.” Em que planeta vive Pedroso?! Não há nada de incompatível entre a defesa dos direitos dos trabalhadores e as reformas introduzidas pelo PS, incluindo o novo código de trabalho? Não se trata de uma mera questão de prioridades de agenda. A mesmo que queira com isto dizer que o PS entende como prioritário corrigir o défice diminuindo a despesa em serviços públicos, e desde logo a sua cobertura e qualidade, enquanto o PCP entende que estes serviços devem ser reforçados, não defendo o governo ter a obsessão do défice, procurando ir corrigindo-o através de uma política fiscal que incida sobre os mais ricos e sobre os lucros do capital, não do trabalho. Estas questões para o PCP não são mera retórica, são questões de princípio, fundamentais para um partido de classe. Para o PS a retórica é como o vento, as prioridades de agenda como as ondas do mar, mas é bem claro qual a classe cujo interesses defende. E sobre isso há um incompatibilidade de fundo entre o PS e o PCP que impede qualquer tipo de reconciliamento no exercício do poder executivo. Curiosamente, tanto Ferro Rodrigues como Pedroso admitem que caso não seja possível coligação com o PCP ou BE, que então se deve recompor a coligação do Bloco Central com o PSD. Isto é, mais importante que as ideias, os programas, as tais “prioridades de agenda”, está a “governabilidade”, não importante o parceiro. Ora mais facilmente se encontrarão traços comuns entre o programa do PS e PSD, “tirando a retórica e as prioridades de agenda”, pois ambos partidos defendem os interesses da mesma classe social, seguem a mesma escola ideológica, e obedecem aos mesmo ditames europeus e internacionais. Aqueles que têm defendido uma coligação da “esquerda” para a Câmara Municipal de Lisboa, poder-se-ão perguntar, mas que PS é tanto daria para formar coligações com os partidos de esquerda como com os outros partidos de direita?

Vital Moreira, no Público (18/Ag), veio contrariar as soluções de coligação. Por um lado, por ainda guarda esperança que o PS ganhe uma maioria absoluta, pois este foi um “bom governo” que “merece ser reconduzido”, “premiado politicamente”. O único prémio que merece a meu ver é um grande bota-fora. Depois, porque admitir coligações à esquerda durante a campanha afastará o eleitorado do PS de centro-esquerda, e admitir novo Bloco Central afasta o eleitorado de esquerda do PS. (Como é que alguém que se identifique como sendo de esquerda ainda pode considerar votar neste PS de Sócrates?) Para Moreira, mais vale o PS formar governo em minoria, e forçar novas eleições caso não tenha condições de cumprir o seu programa eleitoral. O mais curioso é que defende que a dificuldade de formação de governos de coligação em Portugal se deve ao carácter “visceralmente anti-PS” do PCP. A culpa é dos partido de esquerda, não do partido de fachada de esquerda e cumpre o programa neoliberal à letra. É certo que noutros países da Europa coligações entre estas famílias políticas foram possíveis, mas tal sucedeu a custo de cedências ideológicas dos partidos de esquerda, levando ao seu enfraquecimento e até desaparecimento da cena política. Veja-se o que sucedeu em França ou Itália. A dificuldade de formação de alianças do PS com as forças à esquerda reside no facto do PS não ser uma força de esquerda, e de não pretender partilhar o poder, construir uma coligação comum e unitária, mas impor e exercer o seu próprio programa, com a meretriz que seja, ou se necessário sozinho.