Os pregos merecidos e o martelo adequado
Vítor Dias
Mai 29, 2009
É certo que ninguém se pode lembrar de tudo mas confesso que acho um triste sinal da crise de espírito crítico e de cultura democrática que por aí vai que, em relação a recentes declarações de Vital Moreira, os comentários na comunicação social em regra se tenham ficado pela questão do fundamento ou acerto ou falta de ambos da sua proposta de «criar um imposto europeu sobre transacções financeiras, ou, em alternativa, de proceder à transferência de fatias suplementares dos orçamentos nacionais».
Quanto à substância da coisa, dirigentes do PCP e candidatos da CDU já disseram o essencial que era preciso dizer, nomeadamente que só pode dar vontade de rir ver esta proposta sobre taxação de transacções financeiras na boca do cabeça de lista de um partido – o PS- que, pelo menos desde 1996 (esta data tem a sua importância), ou chumbou (quando estava no governo) ou absteve-se às vezes (quando estava na oposição) incontáveis propostas do PCP sobre a taxação de mais valias obtidas na especulação bolsista e em outras moscambilhas do mesmo género.
Pode ser que eu esteja velho e, por mais que queira, não consiga ser «moderno» à moda actual mas creio que só uma certa distracção terá originado que não fosse devidamente salientado que o mais grave não era a proposta de Vital Moreira em si mesma mas os prolegómenos que se lhe seguiram. Com efeito, logo ao primeiro dia, o cabeça de lista do PS veio dizer que «mais pormenores só quando for eleito para o Parlamento Europeu e apresentar propostas nesse sentido» e ontem, no Público (que titulava «Vital e PS a fugirem do imposto, mas oposição não esquece»), tomávamos conhecimento da extraordinária declaração de Vital Moreira que rezava assim: « O que eu disse os senhores [jornalistas] registaram; o que a oposição diz eu não comento».
Feitas as citações, é agora tempo de dizer que, por mim, há muito tempo que não via tamanha sobranceria e desrespeito face aos eleitores, tamanha arrogância intelectual e tamanha desconsideração e amesquinhamento do debate democrático de ideias e propostas, ainda por cima em plena campanha eleitoral.
Com efeito, trocando por miúdos e traduzindo para linguagem mais prosaica, o que Vital Moreira veio dizer aos eleitores foi «primeiro votem em mim e, depois disso, eu faço-lhes o boneco para vocês perceberem». E, como se esta insolência já não bastasse, também trocando por miúdos ainda veio acrescentar que «os senhores jornalistas estão cá para registar o que eu digo e contentem-se com isso porque eu não discuto nada do que disse com os candidatos dos outros partidos».
Do ponto de vista dos valores democráticos está portanto a ser assim o cabeça de lista que o PS escolheu. Juntando isto com a política nacional e europeia do PS nos últimos quatro anos e com o papel de Vital Moreira como pisteiro do agravamento da política de direita do PS ( baba e ranho chorados pela saída de Correia de Campos; defesa do fim das deduções à colecta no IRS por despesas com a saúde e o ensino; amesquinhamento dos professores; mata e esfola contra os trabalhadores da função pública; grande campeão do fim do subsistema de saúde dos jornalistas (que custava ao Estado 300 mil contos por ano quando as abusivos benefícios fiscais aos PPR’s orçam anualmente os 20 milhões de contos); e fornecedor do enganoso celofane das «entidades reguladoras» para as desvairadas privatizações – já temos aqui uma bela série de merecidos pregos para o caixão não da morte mas da derrota eleitoral do PS.
Mas atenção: para pregar estes pregos nem todos os martelos servem e o mais seguro é mesmo o do voto na CDU. Não por causa de um elemento do seu símbolo que está no boletim de voto mas sim por uma coerência, combatividade, seriedade e competência de candidatos e qualidade de propostas que fazem toda a diferença.


