Vítor Dias

Vítor Dias

Como se calculará, nada me move, em termos gerais, contra a existência de programas eleitorais das diversas forças concorrentes a eleições e obviamente que considero que, em abstracto, se trata de instrumentos de clareza e transparência política que devem ou deviam servir de informação fidedigna para a formação da vontade e opção dos eleitores e representar (como representam comprovadamente no caso do PCP) um enunciado de orientações e compromissos a respeitar nos próximos quatro anos.
Dito isto por causa das confusões, não posso entretanto deixar de considerar como completamente artificiais e parciais quer as espadeiradas que simpatizantes do PS e do PS estão trocando entre si, designadamente na blogosfera, a propósito de pontos programáticos quer a abordagem acrítica e crédula que os media estão fazendo dos programas eleitorais desses dois partidos.
E escrevo  isto por causa de duas realidades fundamentais que neste momento estão a ser completamente esquecidas: a primeira é que o que mais influi nos eleitores e dá o tom às campanhas de cada partido não são os programas eleitorais mas sim o que poderíamos chamar de «discurso eleitoral», isto é o que, de forma compreensivelmente seleccionada e por si escolhida, proclamam ou dizem nas entrevistas, nos materiais de comunicação escrita, nas declarações avulsas aos órgãos de comunicação social e nas entrevistas e debates; e a segunda é que o que  é absolutamente característico dos programas eleitorais do PS e do PSD é  em muitos pontos dizerem precisamente o contrário daquilo que depois fazem no governo ou é certas matérias ser tratadas com uma prosa tão elíptica que dá velada cobertura para o que depois de quiser fazer.

Eu sei que muito poucas pessoas serão hoje capazes de reconstituir com detalhe o que foi o «discurso eleitoral» do PS na campanha para as legislativas.  Mas quero ter a esperança de que, apesar disso, muito poucos se atreverão a negar que o tom, o sentido e os enfoques desse discurso pertenceram u a um mundo de palavras encantatórias e completamente diferente e oposto ao mundo de medidas e decisões  gravosas depois tomadas pelo governo do PS nestes quatro e meio, designadamente aquelas que mais funda indignação e descontentamento provocaram em vastíssimos e diversificados sectores sociais.
E. mesmo no estrito e limitado terreno do programa eleitoral escrito e publicado, basta apenas dar um exemplo (e poderiam ser muitos mais). É que eu dou um doce  a quem for capaz de ir ler o que, no seu Programa de 2002, o PS escrevia sobre legislação laboral (pode ser lido aqui ) e conseguir concluir  o que lá escrevia tinha alguma coisa a ver com o agravadíssimo Código de Trabalho que o PS fez aprovar. E para o PSD não se ficar a rir, os leitores também podem ir aqui e ver a quantidade de medidas nefastas que os governos de Durão Barroso e Santana Lopes adoptaram e sobre as quais não havia uma linha no  Programa Eleitoral que haviam apresentado para as legislativas de 2002.
Com estes antecedentes, prevenções e enquadramento, é agora altura de contar aos leitores que acabo de fazer uma descoberta sensacional: de facto, os programas eleitorais do PS e do PSD estão disponíveis em PDF online e lembrei-me de neles fazer, várias vezes para ter a certeza, uma pesquisa das palavras «privatização» e «privatizações». Ora acontece esta coisa verdadeiramente espantosa em dois partidos para quem as privatizações sempre têm sido um elemento estruturante das suas políticas: é que a palavra «privatizações» não aparece em nenhum deles e a palavra «privatização» só aparece, no contexto de «acompanhar» a privatização das empresas de transporte aéreo nas regiões autónomas.
Alguns leitores, sem uma informação exacta da situação, talvez digam «pudera, já privatizaram tudo!»; outros, mais generosos talvez digam «mas isso é bom sinal porque significa que acabou o saque dos bens do Estado». Creio que nem uns nem outros acertam porque a verdade é que ainda há empresas importantes por privatizar e importantes partes sociais do Estado em empresas privatizadas de que PS e PSD se pretendem desfazer e, por fim, basta dizer que está claríssimo que, na concepção do PS, o novo aeroporto  está associado à privatização da ANA.
As minhas infrutíferas pesquisas o que demonstram pois é que os programas eleitorais do PS e do PSD, em domínios essenciais, são programas de deliberada e cínica ocultação.

Vítor Dias

Vítor Dias
Cartaz Bloco de Esquerda

Eu sei, e muitos leitores saberão que eu tenho boas e longas razões para saber, que a propaganda eleitoral, e designadamente a de natureza gráfica ou visual (outdors, MUPIs, mini-Reds, etc.), tem poderosas exigências de simplicidade e algumas vezes não pode mesmo ser um território de absoluto rigor.

Dito isto e com esta ressalva, não posso deixar de registar e de sentir alguma estranheza com um outdor e mini-Red recentemente afixado pelo Bloco de Esquerda.

Com efeito, um transeunte normal, mas ainda assim daqueles que são capazes de prestar alguma atenção à propaganda eleitoral, o dele imediatamente apreenderá é a frase de topo «18 ANOS É MUITO TEMPO», seguida de uma longa sequência «fílmica» de fotografias onde reconhecerá SOBRETUDO Manuela Ferreira Leite e José Sócrates (apenas os mais «estudiosos» já repararão que cada fotografia está reportada a um ano) e terminando com uma pergunta ;: « MERECEM GOVERNAR MAIS ?».

Entretanto, tenho quase a certeza de que a imensa maioria dos destinatários desta mensagem política já não se darão ao meu trabalho de modesto «especialista» em concluir que o cartaz é propositada e assumidamente sobre pessoas; que os «18 anos» foram inventados a partir do ano em que Manuela Ferreira Leite teria integrado pela primeira vez um governo de Cavaco Silva (errado: Manuela Ferreira Leite começou o secretária de Estado do Orçamento em 1990); que a longa série de fotos de Manuela Ferreira Leite e de Sócrates (intercalada a dado momento por uma de Santana Lopes) só se pode sustentar agregando as suas sucessivas qualidades de secretários de Estado, ministros e primeiro-ministro (este no caso de José Sócrates).

Ora face a estes critérios e à mensagem política essencial veiculada a meu ver equivocamente divulgada por este outdor do Bloco de Esquerda, importa-me salientar três pontos essenciais:

- o primeiro destina-se a afirmar, com toda a clareza e vigor, que nos dias de hoje o que é politicamente relevante não é quantos anos, desde 1991, os cidadãos e dirigentes partidários Manuel Ferreira Leite e José Sócrates levam de exercício de funções governativas (e, como é óbvio, em separado nenhum leva 18 anos) mas sim essa outra verdade politicamente muitíssimo mais significativa, verdadeira e crucial de que, desde há 33 anos, o país é governado ora pelo PS ora pelo PSD, com a intercalação de uma coligação PS-PSD e de duas coligações PSD-CDS;

- o segundo visa sublinhar que se porventura o PS e o PSD apresentassem como primeiros candidatos para as legislativas de 27 de Setembro, não Manuela Ferreira Leite e José Sócrates, mas pessoas que fossem mesmo um pletórica novidade, isso para mim não só era igual ao litro como certamente até comentaria, e com razão histórica, que lá voltava o velho truque de mudar de caras para poder continuar a manter a mesma política;

- o terceiro, completando o segundo, visa destacar que, ao contrário do que alguns poderão deduzir deste outdor do Bloco de Esquerda, o grande objectivo democrático e a mais premente necessidade nacional não são tanto obter uma mudança das caras que protagonizam ou representam o PS e o PSD mas sim uma profunda mudança na política que ambos tem imposto ao país, no âmbito de décadas de rotativismo PS-PSD e de alternância sem alternativa, para o que é comprovadamente essencial um poderoso reforço da CDU.

Vítor Dias

Vítor Dias
Provavelmente não poucos leitores, mais informados, mais atentos ou exigentes, dirão que o que se segue já foi dito e que não é pela repetição que lá vamos. Permito-me entretanto chamar a atenção desses leitores que a grande questão que se deve colocar não é se o que, uns e outros, aqui escrevemos é inteiramente original ou não, mas sim se o que de verdadeiro, justo e esclarecedor aqui escrevemos já chegou tão longe quanto devia. E também me permito chamar a atenção desses leitores para que os nossos adversários eleitorais esses não só não tem pruridos de originalidade como, tal como diabo da cruz, fogem de todos os desafios concretos que lhe lancemos à cara.

Por mim, ainda agora, noutro espaço, acabo de desafiar os esquadrões blogosféricos que se mobilizam para o voto no PS para se pronunciarem sobre a comparação entre o que o PS veio vergonhosamente a fazer em matéria de Código de Trabalho e aquilo que, sobre a matéria havia escrito ( e eu reproduzi integralmente) no seu Programa Eleitoral de 2005 e até agora o saldo é que ninguém daquela banda piou fosse o que fosse.

Na verdade, sem pretender ser certeiro ou muito menos exaustivo, cada dia de pré-campanha que passa mais me convenço que são duas as principais cartas em que o PS aposta na batalha das legislativas (e que qualquer delas já terá tido o seu peso na deslocação de algumas pessoas da área do BE para o apoio ao PS).

A primeira consiste em tudo fazer para que, no pensamento dos eleitores, tudo o que de mais chocante, agressivo, intolerável e revoltante decorreu da política governamental destes últimos quatro anos e meio fique envolto numa espécie de nevoeiro ou, dito de outra forma, abrangido por um género de amnésia colectiva e submerso por uma nova onda de promessas, piscar de olhos à esquerda e palavrório futurante.

E daqui decorre a imperiosa necessidade de campanha da CDU conseguir conciliar a indispensável afirmação da solidez, justeza e credibilidade da nova política e projecto que propõe com a implacável rememoração do que de mais odioso, grave e injusto aconteceu no país neste último mandato, por responsabilidade do PS e do seu governo.

A segunda principal carta em que o PS aposta é o velhíssimo truque do «voto útil»(como bem sabemos, útil para quem o recebe, sempre inútil para quem o dá) no PS como alegada «única» forma de evitar o regresso ao poder do PSD ou de uma coligação pós-eleitoral PSD-CDS.

Ora, a este respeito, havendo até intelectuais e professores universitários em movimento de deslocação política que o parecem ignorar, nenhum dúvida de que é preciso levar a toda parte alguns esclarecimentos e raciocínios que a muitos de nós podem parecer óbvios e elementares mas que não o são para centenas de milhar de portugueses. A saber:

1. Para voltarem a governar o país, PSD e CDS precisam de votos neles e devia meter-se pelos olhos adentro que votos nas forças à esquerda do PS (designadamente na CDU) não são votos no PSD e CDS e sempre serão votos que lhes faltarão para obterem a maioria absoluta de que carecem, do que só pode decorrer a evidência notória que votar CDU em nada favorece um regresso do PSD-CDS ao governo;

2. Ao contrário do que tanta gente julga, é uma falsidade de todo o tamanho supor que o que determinará a formação do governo subsequente às eleições é saber qual é o partido mais votado. Imaginemos, por exemplo, que o PSD até fosse o mais votado mas, caso como CDS não formasse uma maioria absoluta, bastava o PS assim querer e nunca um governo PSD-CDS veria a luz do dia. Inversamente, imaginemos que o PS era o partido mais votado mas que havia uma maioria absoluta PSD+ CDS. Nesse caso, alguém duvida que quem formaria governo não seria o PS mas a coligação pós-eleitoral PSD- CDS ?.

3. Assim sendo, fica claro que o que determinará a possibilidades ou variantes de curso governativo pós-eleitoral é o tipo de maioria numéricas multipartidárias que saiam dos resultados eleitorais.

4. E, saindo dos esclarecimentos de base numéricos, de toda a evidência o que eleitoral e politicamente mais determinará o curso dos acontecimentos e mais pode influenciar a conquista das políticas e soluções de que Portugal precisa é um significativo reforço da CDU, aliás absolutamente merecido pelo seu combate dos últimos quatro anos e meios, pelo seu enraizamento social, pelas suas garantias de coerência e pela valia e acerto das suas propostas e programa.

Vítor Dias

Vítor Dias
No ínicio da semana passada, o número de vagas definidas para o ensino superior no próximo ano lectivo teve natural destaque na comunicação social. Entre os dados então divulgados, foi referido, para minha grande incredulidade e espanto, que em Medicina, por comparação com o ano anterior, se registava um aumento de 40-vagas-40 (!!!), logo se explicando porém que não eram propriamente vagas como outras quaisquer já que se destinavam sobretudo a candidatos já diplomados.

Como não sou especialista na matéria nem estou obrigado a acompanhar a evolução de todos as questões nacionais ao longo do tempo, na ocasião deu-me para, generosamente, substituir a minha inicial incredulidade e espanto pela ideia de que, quem sabe, talvez os ligeiros e sempre muito comedidos aumentos de vagas nos últimos anos (sempre por comparação com o ano anterior), gota a gota, tivessem retirado gravidade ou premência a um problema – a falta de médicos (e de enfermeiros) - que, justamente, para aí há uns 10 anos, ganhou foros de verdadeiro escândalo nacional.

De facto, para quem já não se recorde, tornou-se então patente que, apesar de atempadas advertências, por responsabilidade de governos do PSD e do PS, nem o Ministério da Educação nem o Ministério da Saúde levaram a sério os estudos que faziam a clara demonstração de que a prevísivel chegada de centenas e centenas de médicos à idade legal para a sua reforma iria originar uma dramática falta de clínicos no país que, como se viu depois, obrigou à contratação de numerosos médicos estrangeiros, designadamente espanhóis. Sobre esta temática, qualquer consulta ou pesquisa no sítio do PCP porá em evidência a extrema atenção que o Grupo Parlamentar do PCP prestou a este grave problema e que, se não me engano, chegou a culminar na aprovação pela AR de uma sua proposta de resolução instando o governo a uma resposta séria e estruturada a esta preocupante situação.

Infelizmente, a história não acaba aqui pela simples razão de que, na passada quinta-feira, tive a amarga comprovação de que, nestas matérias, mais vale ser desconfiado do que generoso como eu resolvi ser a respeito das falsas 40 vagas a mais.

É que, nesse dia, a manchete do Público proclamava à largura de quatro colunas, que «Médicos uruguaios vão preencher vagas no Algarve e no Alentejo».

Entretanto, quem devia explicar alguma coisa não explica nada, as culpas parece que continuarão a morrer solteiras e, na próxima campanha eleitoral, PS e PSD vão certamente falar-nos, um como estivesse no governo só há quatro anos e meio e outro como se nunca lá tivesse estado.

Ora, para acabar de vez com esta insolente fantochada, já que estamos a falar de saúde, só há um bom remédio: votar CDU.

Vítor Dias

Vítor Dias
Como os leitores bem poderão calcular, há dois dramas maiores que os cronistas (com prazo definido de entrega de textos) enfrentam volta não volta: um é a pura e simples falta de assunto e outro é o chamado embaraço da escolha entre tantos assuntos apetecíveis.

Assim estou eu hoje. Estimulado por uma recente aparição de António Carrapatoso, do Compromisso Portugal (enfim, os do Convento do Beato e beatos sim mas de outra coisa) numa entrevista à SIC, apetecia-me escrever uma crónica intitulada «Ei-los que voltam» (adaptação do inicio daquela bela canção do Manuel Freire que começa «Ei-los que partem/velhos e novos…») para assinalar o regresso descarado aos «media» de tantos e tantos que andaram desaparecidos e calados que nem ratos durante os longos meses de agudização da crise internacional, toleraram sem um pio que, por todo o mundo, insuspeitos jornais e revistas trocassem o velho eufemismo da «economia de mercado» pela expressão «capitalismo» e, agora, que o tão denegrido Estado já injectou milhões e milhões nos cofres da iniciativa privada, lá regressam com as mesmas e bafientas teorias e propostas neoliberais de sempre.

Embora este seja um terreno mais escorregadio por causa das malfadadas generalizações, estimulado pelo aparecimento de um manifesto de 28 «grandes economistas portugueses» em que pontificam grandes expoentes e responsáveis das políticas realizadas desde 1976, incluindo numerosos ex-ministros das Finanças ou da Economia, apetecia contar aos leitores que, desde pelo menos há mais de duas décadas, sempre me defronto com a ideia de que, por razões que não tenho tempo para autopsiar a fundo, se trata do grupo mais impune da sociedade portuguesa, que sobrevive politicamente a todos os desastres em que participou e que está sempre a ressuscitar pletórico de autoridade, prestígio e sapiência.

Depois de ter visto na SIC, na passada quinta-feira à noite, os eminentes comentadores José Miguel Júdice e António Barreto (isto é que vai uma renovação no comentário político em Portugal!) a debitarem opiniões sobre o « caso Manuel Pinho», também me apetecia dizer que se tratou de intervenções que, pela sua parcialidade e superficialidade, só agravam o descrédito das vida democrática e em que é patente uma falsa ignorância deles sobre o que é a vida parlamentar noutros países e em que é sobretudo condenável uma maneira de falar em que ofensores e ofendidos ficam desonestamente metidos no mesmo saco do avacalhamento e desprestigio da política, dos políticos e da instituição parlamentar .
Entretanto, ainda que com ligação com este último assunto, acabo antes por referir, de uma forma muito mais parcial e ligeira do que seria necessário, o estudo baseado num inquérito recentemente divulgado pela SEDES a respeito da «qualidade da democracia portuguesa». A este propósito, registo de passagem que não é uma pequena coisa que 30% dos inquiridos achem que os media não reflectem a pluralidade de opiniões na sociedade (são 33% os que acham que sim) e os dados devastadores sobre «os políticos» e o seu respeito pelas opiniões dos portugueses em que as únicas opiniões que vão contra a conhecida corrente dominante medeiam pobremente entre os 5 e os 12%.
Entretanto, sem negar nenhuma gravidade à situação, quero sobre esta matéria chamar a atenção para que está mais que provado que, ouvidos sobre estas matérias, os cidadãos e cidadãs adoptam muitas vezes uma certa ambivalência. Basta lembrar, por exemplo, que num estudo do Instituto de Ciências Sociais sobre as eleições de 2002, para aí entre 70 a 80% declaravam considerarem «os partidos todos iguais» e eu, quando vi, esse resultado, pensei para comigo « meu Deus, neste inquérito há uma data de outras perguntas  que, em coerência, só podem ficar sem respostas. Mas qual quê. Os mesmos que antes tinham considerado «os partidos são todos iguais», nas outras perguntas sobre simpatias partidárias, sobre líderes políticos, sobre colocações políticas dos partidos etc., etc., fartavam-se de ter e de manifestar opiniões muito precisas e diferenciadas.
Cuidado pois porque nem tudo o que parece, realmente é.

Vítor Dias

Vítor Dias
Desde há bastantes meses que, de uma forma tão absolutamente descarada quanto relativamente impune, está em curso com múltiplas e insistentes expressões nos media a laboriosa construção daquilo que considero uma das maiores falsificações políticas dos últimos anos.

Trata-se de, no quadro de apreciações, análises ou conjecturas sobre variantes de soluções governativas pós-eleitorais, atribuir às forças à esquerda do PS uma alegada atitude de antecipada rejeição de quaisquer acordos ou entendimentos e uma entranhada, radical e quase genética rejeição da possibilidade de virem a assumir eventuais responsabilidades governativas.

Mesmo quando tal contraponto não é expressamente formulado, está bom de ver que este juízo e caracterização das forças à esquerda do PS (e eu apenas falarei quanto ao PCP porque, em boa verdade, não poderia escrever exactamente o mesmo sobre as posições e discurso do BE), induzem inversamente a ideia de que já o PS seria uma pobre vítima da intransigência de terceiros e que, por ele, estaria sincera e activamente disponível para alianças ou entendimentos, de incidência governativa, com forças que estão à sua esquerda.

Dir-se-ia que uma data de gente, incluindo um ou outro politólogo que prezo bastante, por razões de idade ou por submersão pela onda, foram convulsivamente atingidos por uma amnésia do tamanho do Himalaia quer quanto a factos recentes quer quanto a uma longa história passada.

No domínio do recente, conseguem passar ao lado de que jamais o PS admitiu rever, tanto substancialmente como até acessoriamente, as suas orientações políticas fundamentais, sempre ancoradas à direita, e que jamais formulou com clareza qualquer disponibilidade para discussões ou exames conjuntos e responsáveis (estas coisas não se tratam com trocas de «bitaites» através da comunicação social !) sobre fórmulas  de entendimento que sempre teriam de ter como pressuposto básico um significativo corte com as políticas estruturantes por si realizadas.

Já quanto ao passado mais distante, haveria tanto para dizer que nem por sombras pode caber neste espaço. Mas, ainda que de raspão, talvez se possa lembrar aos que não sabem (há-de haver !) e aos que não gostam de lembrar ( oh, se há !) que, em 1976, PS e PCP somavam 59,28% dos votos e o que se seguiu foi primeiro um governo minoritário do PS e, pouco depois, uma coligação com o CDS; que, em 1983, PS e PCP somavam 54,18% mas o que se seguiu foi uma coligação do PS com o PSD; que, tanto em 1995 como em 1999, PS e PCP somavam cerca de 53% dos votos e o que, por duas vezes, se seguiu foi a formação dos governos minoritários de A. Guterres, anunciados logo na manhã seguinte às noites eleitorais sem qualquer contacto ou reunião com o PCP. E tudo isto para já não falar nessa página vergonhosa da história do PS ocorrida em 1985, já com Cavaco Silva como líder do PSD e primeiro-ministro, quando o PS, nas autárquicas de Dezembro desse ano, fez cerca de 40 coligações eleitorais com o PSD em municípios de maioria CDU.

Naturalmente que cada um, militante partidário, cidadão comum, jornalista, comentador ou politólogo é livre de formular as suas próprias previsões ou conjecturas sobre possibilidades ou impossibilidades. Mas isso é uma coisa e outra é proceder desavergonhadamente a uma inversão de responsabilidades que pode dar agora muito jeito ao PS mas ofende a verdade e rasura impiedosamente a história recente e passada.

Talvez alguns digam que esta crónica se agarra a aspectos formais e que é fruto de um espírito miudinho. Julgo que erram em toda a linha. É que, a par de outras, a questão das políticas a realizar e a questão das responsabilidades não são matérias formais, são a carne e o sangue da vida, da acção e da luta políticas. 

É certo que ninguém se pode lembrar de tudo mas confesso que acho um triste sinal da crise de espírito crítico e de cultura democrática que por aí vai que, em relação a recentes declarações de Vital Moreira, os comentários na comunicação social em regra se tenham ficado pela questão do fundamento ou acerto ou falta de ambos da sua proposta de «criar um imposto europeu sobre transacções financeiras, ou, em alternativa, de proceder à transferência de fatias suplementares dos orçamentos nacionais».
 
Quanto à substância da coisa, dirigentes do PCP e candidatos da CDU já disseram o essencial que era preciso dizer, nomeadamente que só pode dar vontade de rir ver esta proposta sobre taxação de transacções financeiras na boca do cabeça de lista de um partido – o PS- que, pelo menos desde 1996 (esta data tem a sua importância), ou chumbou (quando estava no governo) ou absteve-se às vezes (quando estava na oposição) incontáveis propostas do PCP sobre a taxação de mais valias obtidas na especulação bolsista e em outras moscambilhas do mesmo género.
 
Pode ser que eu esteja velho e, por mais que queira, não consiga ser «moderno» à moda actual mas creio que só uma certa distracção terá originado que não fosse devidamente salientado que o mais grave não era a proposta de Vital Moreira em si mesma mas os prolegómenos que se lhe seguiram. Com efeito, logo ao primeiro dia, o cabeça de lista do PS veio dizer que «mais pormenores só quando for eleito para o Parlamento Europeu e apresentar propostas nesse sentido» e ontem, no Público (que titulava «Vital e PS a fugirem do imposto, mas oposição não esquece»), tomávamos conhecimento da extraordinária declaração de Vital Moreira que rezava assim: « O que eu disse os senhores [jornalistas] registaram; o que a oposição diz eu não comento».
 
Feitas as citações, é agora tempo de dizer que, por mim, há muito tempo que não via tamanha sobranceria e desrespeito face aos eleitores, tamanha arrogância intelectual e tamanha desconsideração e amesquinhamento do debate democrático de ideias e propostas, ainda por cima em plena campanha eleitoral.
 
Com efeito, trocando por miúdos e traduzindo para linguagem mais prosaica, o que Vital Moreira veio dizer aos eleitores foi «primeiro votem em mim e, depois disso, eu faço-lhes o boneco para vocês perceberem». E, como se esta insolência já não bastasse, também trocando por miúdos ainda veio acrescentar que «os senhores jornalistas estão cá para registar o que eu digo e contentem-se com isso porque eu não discuto nada do que disse com os candidatos dos outros partidos».
 
Do ponto de vista dos valores democráticos está portanto a ser assim o cabeça de lista que o PS escolheu. Juntando isto com a política nacional e europeia do PS nos últimos quatro anos e com o papel de Vital Moreira como pisteiro do agravamento da política de direita do PS ( baba e ranho chorados pela saída de Correia de Campos; defesa do fim das deduções à colecta no IRS por despesas com a saúde e o ensino; amesquinhamento dos professores; mata e esfola contra os trabalhadores da função pública; grande campeão do fim do subsistema de saúde dos jornalistas (que custava ao Estado 300 mil contos por ano quando as abusivos benefícios fiscais aos PPR’s orçam anualmente os 20 milhões de contos); e fornecedor do enganoso celofane das «entidades reguladoras» para as desvairadas privatizações – já temos aqui uma bela série de merecidos pregos para o caixão não da morte mas da derrota eleitoral do PS.
 
Mas atenção: para pregar estes pregos nem todos os martelos servem e o mais seguro é mesmo o do voto na CDU. Não por causa de um elemento do seu símbolo que está no boletim de voto mas sim por uma coerência, combatividade, seriedade e competência de candidatos e qualidade de propostas que fazem toda a diferença.

Vítor Dias

Vítor Dias
Tudo ponderado, não é excessivamente cedo para pedir quer aos eleitores fiéis da CDU quer a todos aqueles e aquelas que têm tantas boas razões para desta vez dar o seu voto à CDU que, por favor mas a favor de si próprios, pensem bem na importância de não faltarem com o seu voto no dia 7 de Junho.

Ao contrário do que fez o Parlamento Europeu na sua campanha político-publicitária contra a abstenção em que, a par de argumentos mais sensatos, não deixou de incluir a ideia de que o dia de voto também é uma ocasião «para ir a um jardim ou beber um copo», o nosso apelo para uma participação massiva e poderosa na votação de dia 7 de todos os que confiam na CDU tem outros fundamentos mais sérios e cruciais.

Com efeito, não sendo difícil admitir que mesmo na área de influência eleitoral da CDU haja não poucos cidadãos para quem a Europa, o Parlamento Europeu e as chamadas «questões europeias» dizem pouco, ou então que consideram que estas eleições ainda são a «feijões» (rima mas não é verdade), então é necessário dizer-lhes e lembrar-lhes que o Parlamento Europeu pode ficar longe, mas a votação é cá e é cá que os seus resultados terão incontornáveis repercussões.

Sobretudo porque, ninguém duvide, ou darão – como esperamos, queremos e é necessário – um sinal de dinâmica e esperança a favor dos que lutam por mudanças reais e profundas na política nacional ou darão um sinal de resignação e desistência a favor de um futuro de imobilismo que, como a palavra indica, só terá para nos oferecer mais do mesmo.

Os eleitores que já confiaram no passado e estão disponíveis para confiar pela primeira vez há bastante na CDU, sendo como são cidadãos e cidadãs conscientes e empenhados, de uma coisa não podem ter a mais pequena dúvida: é que aquele Secretário-geral do PS e primeiro-ministro que agora, dia sim dia não, nos diz que as eleições são só para o Parlamento Europeu e não terão projecções directas na vida política nacional, será o Secretário-geral do PS e primeiro-ministro que, se no dia 7 o resultado do PS for bom ou pelo menos razoável, estará em todas as televisões a atirar-vos à cara que os resultados mostraram um sólido apoio à política do seu governo, mostraram que tanto falatório sobre descontentamentos e manifestações contra a política do seu governo eram afinal obra de pequenas minorias e que nada nem ninguém pode falar mais alto e mais claro que as urnas.

E a pergunta franca, directa e sincera que quero aqui fazer a todos e a todas que tanto e tão generosamente lutaram contra a injusta política deste governo nos últimos quatro anos é apenas esta : querem passar pela situação de, sentados em casa, terem de ouvir José Sócrates a amesquinhar e desvalorizar a vossa indignação, o vosso descontentamento e a vossa luta, sem ao menos terem a consciência tranquila de que, tendo ido votar CDU, tudo fizeram para que isso não acontecesse?

Quero crer que não querem. E quero crer que perceberão que a nossa frase «Levar a luta até ao voto», longe de ser uma coisa esquisita, é a consigna de maior profundidade e valor democráticos que está presente nesta campanha eleitoral.